Ana Clara Guerra Marques
(ou como o corpo também pode escrever história)
Há quem escreva livros. Há quem pinte quadros. E há quem use o corpo como voz. Ana Clara Guerra Marques pertence a este último grupo — o dos que fazem da dança um modo de pensar, de resistir e de construir país.
Filha de Angola, mulher de ideias claras e passos firmes, Ana Clara não dança apenas — coreográfa inquietações, levanta questões, e comanda, há décadas, um dos projectos mais corajosos e consistentes da cena artística angolana: a Companhia de Dança Contemporânea de Angola.
Fundada nos anos noventa, em plena ressaca de guerra e reconstrução, a companhia foi — e continua a ser — um espaço de liberdade criativa, onde os corpos angolanos se expressam para além do folclore, da tradição engaiolada ou do exotismo que tantas vezes é projectado de fora para dentro. Aqui, a dança é contemporânea, sim — mas não no sentido europeu da palavra. É contemporânea porque é urgente. Porque está viva. Porque pulsa no ritmo de Luanda, nas contradições do país, no silêncio da dor e na vibração do sonho.
Ana Clara, com a sua formação sólida em dança, etnocenologia e investigação académica, nunca se contentou em pôr corpos bonitos em movimento. Quis sempre mais. Quis pensar a identidade angolana através da fisicalidade, explorar a memória do corpo africano colonizado, violentado, libertado. Criar uma gramática própria — nem cópia do ballet do hemisfério norte, nem pastiche das danças tradicionais. Uma linguagem mestiça, forte, híbrida, que pudesse dizer Angola sem pedir licença.
Os seus espectáculos — e já são tantos como, por exemplo, A Propósito de Lweji, Uma frase qualquer… e outras (frases), Peças para uma sombra iniciada e outros rituais mais ou menos, (Des)construção, Palmas, por Favor!, O Homem que chorava sumo de tomates, O monstro está em cena — não deixam ninguém indiferente. São políticos, poéticos, profundamente angolanos e profundamente universais. Ali, em palco, os bailarinos tornam-se cronistas de um país em constante (re)descoberta de si mesmo.
Mas talvez o mais impressionante no percurso de Ana Clara seja a persistência. Num contexto onde o apoio às artes é escasso, onde a dança é muitas vezes vista como luxo, onde as estruturas culturais são frágeis, ela mantém-se. Com disciplina. Com uma exigência imensa. E com uma fé inabalável de que a arte pode transformar — não o mundo todo, talvez, mas aquele pequeno pedaço de mundo que é o espectador tocado por um gesto, uma imagem, uma vibração.
Ana Clara Guerra Marques é mais do que coreógrafa: é arquitecta de corpos conscientes, pedagoga da emoção, construtora de futuros possíveis através do movimento. E Angola dança melhor porque ela nunca parou.
