A contra-costa do Mussulo
A contra-costa do Mussulo é o segredo que o Mussulo sussurra apenas a quem se dá ao trabalho de o escutar com atenção. Não se anuncia, não se oferece de imediato. É o avesso dos postais, o lado B da península — mais agreste, mais solitário, mais belo na sua nudez. Se a baía do Mussulo é o salão de visitas, com barcos, caipirinhas e crianças a chapinhar, a contra-costa é o quarto dos fundos, onde a luz entra filtrada e o silêncio se demora.
Ali, o mar não é morno nem calmo: é o Atlântico inteiro a bater, sem mediações, sem cerimónias. As ondas rebentam com fúria disciplinada, arrastando a areia e marcando o corpo com a verdade salina do oceano. A areia é mais grossa, mais escura por vezes, e o vento sopra com mais força, como se quisesse afastar os distraídos. E afasta. Porque a contra-costa não é para qualquer um. É para os que procuram estar sozinhos sem se sentirem sós.
Chega-se a pé, pela língua de terra que separa as duas faces do Mussulo, ou de barco, num contorno que demora o tempo suficiente para se mudar de humor. E quando se chega, há qualquer coisa que se solta no corpo — como se o ar tivesse menos expectativa, como se a paisagem nos libertasse da obrigação de estar sempre a aproveitar. Ali, pode-se simplesmente estar.
E quando se olha para trás, imagina-se Luanda ao longe, enevoada, quase irreal. Como se a cidade fosse um sonho de outro tempo, e nós estivéssemos agora acordados, neste lugar mais puro, mais rude, mais verdadeiro. É a natureza sem verniz, sem se render ao turismo, a lembrar que o Mussulo, afinal, é também este lado: onde ninguém chega por engano e ninguém sai igual.
A contra-costa do Mussulo é para quem precisa de se perder, para se encontrar. Para quem quer ouvir o mar gritar, e responder-lhe com o silêncio. É um refúgio sem promessas, sem conforto aparente, mas com uma beleza tão honesta que quase comove. Quem lá esteve, sabe: há lugares onde o mundo abranda — e depois há lugares como este, onde o mundo, por instantes, desaparece.
