O Mussulo
O Mussulo não é bem uma ilha — é uma ilusão feliz, uma curva longa de areia e sal que parece flutuar entre o tédio da cidade e o desejo do paraíso. Como quem pega numa jangada e vai — não para fugir, mas para abrandar. É o lugar onde Luanda vai lavar a cara, estender o corpo e, por vezes, esquecer-se de si mesma.
Chegar lá já é, em si, uma pequena declaração de vontades: kapossoka, barco alugado, lancha de amigo, ou até um quatro por quatro desconfiado a mastigar areia e buracos pela língua da península. O que importa é ir, nem que seja só para ver o sol a cair de lado, pintando de laranja os coqueiros inclinados como se estivessem também eles cansados de estar sempre direitos.
No Mussulo, o tempo não passa — espreguiça-se. A água, do lado da baía, é um caldo morno e silencioso onde boiam os risos das crianças e os segredos sussurrados entre copos de Cuca e moambas tardias. Do lado do mar aberto, o Atlântico rosna, e os surfistas dão cambalhotas em nome da liberdade ou do Instagram, conforme a fé.
Há quem vá para a festa, para o som que vaza das colunas plantadas na areia, com nomes como “Tenda do Dj Zangado” ou “Sunset Privado”. Há também quem vá para a solidão, que ali se encontra com facilidade — é só andar um pouco, passar as últimas casas, os últimos olhares, e seguir até ao silêncio.
Mas o Mussulo é sobretudo um estado de espírito. É Luanda sem o trânsito, sem os candongueiros a apitar, sem a pressa. Um sítio onde até os telefones perdem vontade de tocar. Onde os gelados sabem a infância, o peixe sabe ao mar, e os corpos sabem estar, deitados, a absorver o que o asfalto não dá.
As casas do Mussulo — algumas de madeira, outras de betão ambicioso — respiram um luxo cansado, tropical, colonial, mestiço. São moradias que vivem mais no imaginário do que nos contratos de propriedade. Casas com varandas onde se bebe lentamente e se observa o mundo a abrandar.
E depois há o regresso. Sempre um pouco triste. Com a pele quente, o cabelo salgado, e aquela vaga sensação de que se esteve num lugar que não devia existir, ou que não devia ser permitido. Uma ilha de irrealidade plantada ao lado de uma cidade que arde em excesso. Mas existe. O Mussulo está lá. Como uma lembrança, um consolo, uma pequena traição à pressa dos dias.
Se o Mussulo fosse uma pessoa, seria alguém de chinelos gastos, camisa aberta e um sorriso indeciso. Um tipo que já teve tudo, perdeu quase tudo, mas ainda sabe onde encontrar beleza — à sombra de uma palmeira, com uma cerveja morna na mão, e o mundo inteiro a dançar devagar ao longe.
