Cuca
(ou como uma cerveja se transformou em país líquido)
Há nomes que dispensam explicação. Diz-se “Cuca” e toda a gente percebe. Não é só uma marca. Não é só uma cerveja. É uma instituição. Um estado de espírito. Uma fotografia líquida de Angola servida em garrafa castanha, com espuma farta e alma de bairro.
A Cuca não é sofisticada — e ainda bem. Não vem com notas florais, nem promessas de carvalho francês. Não é daquelas que se servem em copos altos com nomes estrangeiros. A Cuca vem como é: gelada, fiel, honesta. Como o amigo que chega sempre a horas quando há festa, ou quando a vida pesa demais.
O ritual que não precisa de cerimónia
A sua força está no costume. No gesto automático com que se pede: “dá-me uma Cuca”. Na forma como ela aparece na mesa sem precisar de apresentações. Naquela primeira trinca no gargalo, com os dentes, antes de se encostar aos lábios como quem beija a terra onde nasceu.
É a cerveja do fim da obra, do início do domingo, do meio da conversa. Bebe-se na esplanada, em pé junto à barraca, no quintal com vizinhos, na praia com os pés na areia e a cabeça nas nuvens. E acompanha tudo: o frango no churrasco, o peixe na grelha, o funge da tia, a música alta no rádio.
Muito além de bebida
Durante anos — décadas até — a Cuca foi mais do que bebida: foi sobrevivência emocional. Em tempos de escassez, havia Cuca. Em tempos de festa, também. Sempre ao lado, como quem diz “não está fácil, mas estamos vivos”.
E mesmo com a concorrência a crescer, com marcas a tentar imitar-lhe o trono, a Cuca mantém-se firme. Porque há coisas que não se substituem. O sabor pode mudar um pouco, o rótulo pode brilhar mais ou menos, mas o sentimento — esse — fica.
Angola em estado líquido
A Cuca é Angola em estado líquido: quente, ruidosa, descontraída, generosa. É o brinde feito sem ocasião, a gargalhada partilhada sem motivo. É a pausa merecida, a recompensa silenciosa, a companhia leal.
E enquanto houver sol, conversa e sede — haverá Cuca.
