The Piano Has Been Drinking — Tom Waits e a arte sublime do desalinho
Ah, The Piano Has Been Drinking (Not Me). O que há a dizer sobre uma canção que é, ao mesmo tempo, um delírio, um manifesto e um antihino à decadência alegre? Esta pequena jóia do álbum Small Change (1976) é puro Tom Waits: absurda, melancólica, hilariante e absolutamente brilhante.
Aqui, Waits apresenta-se como o mestre de cerimónias de um cabaret decadente, onde tudo e todos parecem estar ligeiramente desalinhados – o piano está bêbado, o balcão está torto, o microfone cheira a cerveja, e a noite é uma confusão gloriosa. É como se fôssemos convidados a entrar num bar onde o próprio universo se esqueceu de como deve funcionar, e onde a realidade se desintegra numa espécie de poesia embriagada.
A canção é, claro, uma piada – mas é também muito mais do que isso. Aquele refrão (“The piano has been drinking, not me”) não é só um gracejo; é uma declaração de um narrador que se recusa a assumir a culpa pelas suas próprias falhas, mas que, ao mesmo tempo, parece perfeitamente ciente do caos à sua volta. É a comédia do desespero, o humor negro que só alguém como Tom Waits poderia transformar em arte.
Musicalmente, a faixa é tão desalinhada quanto a letra. O piano arrasta-se como se estivesse, de facto, bêbado, tropeçando nas notas, enquanto Tom Waits declama as suas observações num tom que oscila entre o sarcástico e o existencial. Há algo de teatro nesta performance – não só na entrega vocal, mas na maneira como toda a música parece uma cena improvisada de um filme noir absurdo.
E depois há o subtexto, porque em Tom Waits há sempre subtexto. The Piano Has Been Drinking pode muito bem ser um comentário sobre a própria indústria musical e a ideia de autenticidade. Waits, o homem que sempre rejeitou o polimento e a pretensão, oferece-nos uma canção que soa como uma jam-session desastrosa, mas que, na verdade, é meticulosamente construída para parecer exatamente isso. É como se estivesse a dizer: “Sim, tudo está fora de controlo – e não é isso maravilhoso?”
No fundo, The Piano Has Been Drinking é uma celebração da imperfeição, da falibilidade humana, da beleza que existe nas coisas partidas. Não é uma canção para levar a sério – e, ao mesmo tempo, é uma canção que nos desafia a levar a sério a ideia de não levar nada demasiado a sério. É Tom Waits no seu melhor: a transformar um pequeno momento absurdo numa obra de arte que ressoa muito para além da última nota.
