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Hoje: 2026-10-16

Geradores

Os geradores marcaram as noites sem luz com o seu ruído constante, símbolo de alívio, resistência e conforto nas rotinas de uma cidade habituada ao imprevisível.
Gerador portátil a funcionar no exterior de uma casa durante a noite.
Um gerador portátil garante eletricidade quando a rede falha.

Geradores — O barulho que soava a alívio nas noites sem luz

Houve um tempo — e não foi assim há tanto — em que a electricidade era uma espécie de milagre com horário incerto. Bastava um trovão mais atrevido, um capricho da rede, ou simplesmente a noite cair com má disposição, para que tudo se apagasse. E nesse apagão, como em todos os apagões, havia um momento de silêncio absoluto. Um segundo suspenso no ar. Depois — rrrrrrrunnn — o rugido metálico da salvação: o gerador.

Feio, barulhento, a deitar fumo e a cuspir calor, o gerador nunca teve pretensões a ser bonito. Mas era querido. Era o herói ruidoso das noites sem luz, o santo padroeiro dos congeladores, dos electrodomésticos e da televisão a meio da telenovela. Havia casas que tinham o pequeno — discreto e ciumento, só para o essencial. Outras, mais afortunadas ou mais prevenidas, tinham os grandes, os que alimentavam festas e frigoríficos como se nada fosse.

O barulho era constante, uma espécie de mantra mecânico que se entranhava na noite. E se, ao princípio, parecia demasiado, ao fim de minutos tornava-se música de fundo. Era o som do conforto. O som da electricidade improvisada. Do frigorífico a zumbir de novo. Da luz acesa sobre o prato. Da ventoinha a girar como um milagre doméstico.

Na cidade às escuras, os geradores eram faróis. Sinais de vida. E quem andava na rua, ao ver uma casa iluminada, já sabia: ali há um gerador. E, provavelmente, café quente.

É verdade que não eram poéticos. Não havia nada de romântico num gerador. Mas havia uma ternura prática. Um agradecimento silencioso a quem se lembrara de o abastecer. A quem o ligava com jeito. A quem suportava o cheiro a gasóleo e o barulho ensurdecedor para que o resto da casa pudesse fingir, por uma hora ou duas, que o mundo ainda funcionava.

E talvez o mais bonito seja isso: naquela altura, quando tudo se apagava, os geradores lembravam-nos que havia sempre maneira. Que mesmo no meio da escuridão, havia um motor que arrancava — cansado, feio, mas fiel — e dizia: não te preocupes, a luz ainda vive aqui.

Fotógrafo a trabalhar com equipamento de estúdio em retrato a preto e branco
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José Silva Pinto

Quitandeira com tabuleiro de alimentos à cabeça e criança às costas.
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