Imbondeiro — (ou como uma árvore pode ser mais angolana do que muitos angolanos)
Há árvores que são só árvores. E há outras, como o imbondeiro, que são países inteiros. Pátria vegetal. Monumento vivo. O imbondeiro não é só uma árvore que se vê: é uma árvore que se sente. E quem já o viu ao fim da tarde, em contraluz contra o céu de fogo de uma Angola cansada e luminosa, sabe que há coisas que não se explicam. Aceitam-se.
Com aquele tronco de barriga cheia, largo como a memória de quem já viu muita guerra e muita festa, o imbondeiro parece estar ali desde sempre. E está. Sobrevive a tudo: ao calor, à seca, à pressa do mundo. É paciente. Não tem pressa nenhuma — como se soubesse que tudo passa, menos ele.
É árvore de contar histórias. À sua sombra juntam-se homens, mulheres e crianças que falam baixo, como se o respeitassem. E respeitam. Porque o imbondeiro ouve. Ouviu de tudo. É velho, mas não se queixa. Tem casca rugosa, como mãos de lavrador, e frutos que sabem a infância de quem cresceu a chupar múcua com os dedos sujos de pó e alegria.
Dizem que parece uma árvore virada do avesso — com raízes ao céu, como se quisesse lembrar aos homens que há sempre uma ligação entre o que está cá em baixo e o que está lá em cima. Pode ser. Mas talvez o imbondeiro esteja só a dançar, devagarinho, uma dança que só as árvores sabem dançar.
Angola tem muitos símbolos, mas poucos são tão teimosamente belos como o imbondeiro. Está ali, firme, a lembrar-nos que a terra não é só chão — é também memória, sombra, tempo, alimento. E um bocadinho de magia, para quem ainda acredita nessas coisas.
