Instruções para Salvar o Mundo — de Rosa Montero
Há livros que parecem vir de um lugar onde o mundo já acabou, mas onde ainda há quem continue a varrer o chão, a fazer café e a segurar a mão de alguém. Instruções para salvar o mundo é isso: um romance sobre o fim de quase tudo — e, no entanto, uma celebração discreta do que ainda resiste.
Rosa Montero não precisa de enredos complicados nem de personagens que se apresentem com fanfarra. O que ela faz é muito mais difícil: dá-nos quatro vidas em frangalhos, quatro pessoas que a cidade mastigou e cuspiu para os cantos, e consegue com isso escrever um romance sobre a decência. Não a decência moral, nem a social — mas a decência essencial: a capacidade de, mesmo esmagados, ainda vermos o outro.
Matias é um taxista viúvo, preso à ausência da mulher como quem segura um volante no meio do nevoeiro. Daniel, um médico cuja alma já entrou em putrefacção muito antes dos corpos com que trabalha. Fatma, prostituta nocturna, que sabe mais sobre os homens do que qualquer terapeuta, e que carrega no corpo e no olhar uma sabedoria que nunca se fez de livros. E o Cérebro, uma cientista falhada, afogada em álcool e teorias, que espera que alguém a ouça antes de desaparecer de vez.
São vidas partidas, sim. Mas Rosa Montero trata-as com uma delicadeza radical. Nunca os julga, nunca os redime à força. Limita-se a mostrar como, mesmo no meio da maior miséria — emocional, social, existencial —, há momentos de encontro. Pequenos gestos que, por um instante, suspendem o absurdo do mundo. E é aí que está a grandeza deste livro: não na ambição narrativa, mas na profundidade com que compreende o que é ser gente.
A escrita é limpa, contida, directa. Mas cheia de ecos. Cada frase tem o peso certo, como quem fala só quando vale a pena. E o que diz — mesmo quando sussurra — fica. Porque o que está em causa aqui não é apenas sobreviver. É resistir com alguma dignidade. É continuar a perguntar pelos outros. É não deixar que a indiferença nos leve tudo.
É um livro belíssimo. Sem floreados. Sem cinismo. Um daqueles romances que nos fazem acreditar que, apesar de tudo, há salvação. Não para o mundo inteiro. Mas para o mundo de cada um.
